Projeto destaca o cabelo como forma de resistência negra no IFMA de Codó

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Nome do projeto – Borboleta pousa em flor: O cabelo como forma de resistência negra
Público-alvo: alunas negras do Ensino Médio do IFMA Campus Codó em fase de transição capilar.
Coordenadoras: Prof. Esp. Maria Alda Pinto Soares e Prof. Esp. Maria Jaciara Cunha Moura Costa

Foto: Elcianne Menezes, fotógrafa
Foto: Elcianne Menezes

Colaboradora: Elcianne Menezes, fotógrafa- que presenteou as alunas com um book fotográfico.

O cabelo, mais do que a moldura do nosso rosto, está cercado de significados e representações. Pode dizer quem somos, como gostamos de levar a vida ou até mesmo informar sobre liberdades e privações. Com ele podemos nos envaidecer diante de elogios ou até mesmo sermos alvo de preconceitos. Parece coisa simples e para muitos desnecessária uma discussão acadêmica sobre o assunto.

Mexendo com a autoestima | Foto: Elcianne Menezes, fotógrafa
Mexendo com a autoestima | Foto: Elcianne Menezes

No entanto, como não problematizar algo que está ao mesmo tempo num plano individual e coletivo?  Algo que fala tanto sobre quem somos ou como estamos? Ou ainda, algo para que se estabeleceu um padrão e marginalizou-se as diferenças?

Quando o assunto é o cabelo crespo/afro que imagens captadas veem em nossas mentes? Que lembranças temos da nossa infância ou juventude que estejam ligadas à este elemento do nosso corpo? As respostas variam muito. As imagens são múltiplas e bem diferenciadas entre brancos e negros e para estes últimos, de modo mais intenso, podem constituir um verdadeiro processo de rejeição/aceitação/ressignificação.

Neste contexto, para além dos salões de beleza, temos percebido atualmente o cabelo  negro/afro/crespo/cacheado como um forte ícone identitário que transita nos movimentos sociais e transversa todos os espaços, uma vez que, este sai dos limites corpóreos individuais e insere-se na construção de um símbolo político, sendo utilizado como instrumento coletivo de resistência e valorização da identidade negra.

Neste movimento, tem-se despertado para as relações etnicorraciais e os conflitos que emergem a partir de contextos de racismos mascarados, sem descartar neste processo o ambiente escolar.

Compreendendo a escola enquanto um espaço de aprendizagens e compartilhamentos de saberes, conteúdos, experiências e valores, onde discussões clássicas e contemporâneas tornam o processo educativo permeado de relações entre cultura e sociedade, insere-se o debate sobre construções de identidades em articulação com a proposta de educação das relações étnico-raciais, tomando-a enquanto um projeto conjunto em defesa de uma educação e sociedade comprometida com o combate ao racismo e à toda forma de discriminação.

Assim, o presente projeto discute olhares sobre o cabelo negro enquanto marca identitária, simbólica, forma de resistência do povo negro versus as visões de inferioridade atribuída à este pelos padrões de beleza europeus tão potencializados em nosso país.

O nome do projeto “ BORBOLETA POUSA EM FLOR: O cabelo como forma de resistência negra” vem da interatividade nas redes sociais. Origina-se numa imediata resposta frente ao preconceito sofrido por Márcia Conceição, que em seguida postou no Facebook o acontecido, relatando assim:

“Tava de boas e uma borboleta pousou no meu cabelo. Ok. Continuei andando. O grupinho de falsiane começa a rir e solta um “é tão duro que a borboleta pensou que era ninho”. Fiz a debochada – borboleta não tem ninho não, amor. Ela só pousa em flor! Falsianes não aprendem.”

A postagem de Márcia Conceição conquistou 1,8 mil pessoas e mais de 529 compartilhamentos. Isso, apenas na postagem primária, sem os incontáveis arranjos e “prints” que ‘viralizam’ e transversam em todas as redes sociais.

A cena de preconceito relatada por Márcia naquele 27 de Agosto de 2015, infelizmente, faz parte do cotidiano de muitas pessoas negras. Seja quando tentam um encaixe nos padrões de beleza europeizados, ou ainda quando assumem seus cabelos naturais.

Na escola, na rua, nos clubes e até mesmo dentro de casa, o cabelo natural negro tem sido uma das vias de recebimento de preconceito étnico. No entanto, começamos a perceber outras Márcias, que não se envergonham do seu cabelo natural, da cor de sua pele, do formato de seu nariz.

Enquanto educadoras temos percebido o impacto do preconceito étnico-racial no espaço escolar, da Educação  Infantil à Universidade. Também, enquanto cidadãs, nas escolas, nas ruas, na mídia, incluso o âmbito familiar. Dentro do IFMA Campus Codó, temos direcionado olhares e percepções para alunos e alunas negros/as do Ensino Médio, mais especificamente para as alunas, uma vez que, é sobre estas que mais tem pesado a influência da mídia pelos estereótipos de beleza, com propagandas incessantes sobre os ideais de beleza impostos pela cultura, diga-se de passagem, tratando-se do cabelo, considerado belo é o cabelo liso, que “balança”. Padrão este que tem aprisionado muitas meninas negras num encaixe, num grau de subordinação que as omite e  as submete às tentativas de correspondência aos padrões ora estabelecidos. Neste contexto, nasceu a vontade e necessidade de discutir sobre o processo de valorização/aceitação da identidade negra de meninas/adolescentes.

Por Maria Alda Pinto Soares

  • Profª Especialista em Psicologia da Educação (UEMA)
  • Licenciada em Ciências Humanas/História (UFMA)
  • Licenciada em Pedagogia (FLATED)

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