Sofrendo com cortes nas doações recebidas pelos países membros da ONU e com o aumento do número de refugiados, o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (“World Food Programme”, WFP em inglês) reduziu a quantidade de alimentos distribuídos e de pessoas assistidas nos últimos meses, reportou o jornal americano Washington Post.

O WFP distribui cestas básicas em campos de refugiados de todo o mundo. A quantidade e seleção dos produtos variam de região para região, e são pensadas a partir do cálculo da quantidade diária de calorias ingeridas por pessoa. Na Etiópia, esse número caiu 20%, deixando os cerca de 650.000 refugiados atendidos com apenas 1.680 calorias por dia. Em contraste, a recomendação médica é, em geral, de 2.000 calorias para mulheres e 2.500 para homens.

Se não for encontrada uma solução para o déficit orçamentário de 28 milhões de dólares do programa no país, as cestas podem ser reduzidas para 1.000 calorias diárias.

A situção se repete em outros países em que o programa está presente. No Iêmen, apenas 60% da cesta básica é distribuída devido à falta de recursos — o que correspondente a 1.260 calorias por dia. O país, que vive uma guerra civil, passa por uma grave crise de fome, além de surtos de cólera e difteria.

Segundo o Washington Post, o WFP estimou seu orçamento de 2016 em 8,84 bilhões de dólares, mas recebeu apenas 5,92 bilhões. Em 2017, precisava receber 9,6 bilhões para operar, mas novamente recebeu menos que o orçado — apenas 5,96 bilhões de dólares, um aumento insuficiente para cobrir as necessidades do programa.

Crianças iemenitas suspeitas de ser infectadas com cólera recebem tratamento no Hospital Sabaeen, em Sanaa (Mohammed HUWAIS/AFP)

Não é apenas a diminuição nas doações dos membros da ONU que tem afetado a distribuição de alimentos feita pelo WFP. Para Peter Smerdon, porta-voz do programa na África oriental, o aumento do número de refugiados em todo o mundo sobrecarregou o orçamento.

“A imensa demanda superou a capacidade dos doares de continuarem a aumentar as verbas”, afirmou. Além do Iêmen, o Sudão do Sul, a Nigéria e a Somália sofrem de crises de fome. Apenas na Etiópia, mais de 10.000 refugiados chegam todos os dias; o número de refugiados cresce também na Síria. Na enorme maioria dos casos, o WFP é a única fonte de alimento.

“Os doadores têm dado mais, porém receio que não seja possível continuar assim”, disse Smerdon. “Somente o desenvolvimento vai solucionar o problema. Somos apenas um Band-Aid”.

Efeito colateral

Sem perspectiva de trabalho e após terem abandonado suas terras e pertences para fugir de conflitos, os refugiados contam com as cestas básicas para mais do que apenas se alimentar. A maioria dos residentes dos campos assistidos pelo WFP vende parte das doações para a comunidade local. Dessa forma, conseguem comprar produtos que não estão incluídos nas cestas, como roupas, leite e açúcar.

Em um dos maiores campos de refugiados do mundo, o Dadaab, no Quênia, os cortes nas cestas tiveram efeitos perversos.

Sem receber alimentos suficientes, grande parte dos somalis que vivem ali passou a comprar a crédito de comerciantes locais. Em poucos meses, os valores se tornaram impagáveis e os credores começaram a fazer ameaças.

Criança somali desnutrida em clínica da organização Médicos sem Fronteiras na cidade de Dadaab, no Quênia, em 2016. (Dai Kurokawa/EFE/VEJA)

Os somalis encontraram uma saída no programa de repatriação voluntária da ONU, iniciado em 2016 logo após o governo do Quênia ter ameaçado fechar o campo. Com o objetivo de auxiliar os refugiados a se restabelecerem em seu país de origem, as Nações Unidas oferecem cerca de 150 dólares por pessoa que decida retornar. Para muitos, essa é a única forma de pagar suas dívidas. No fim, retornam à Somália de mãos vazias.

Questionada pelo Washington Post, a ONU afirmou que estava ciente de que o endividamento tinha motivado alguns refugiados a voltarem para a Somália. Porém, oficiais afirmaram não saber quanto a prática influencia a decisão de retornar. “É algo que estamos investigando”, disse Denis Kuindje, chefe do escritório do Acnur em Dadaab.

SEM COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA